7. OS MITOS SOLARES E OS MISTÉRIOS
Os mitos estão intimamente ligados aos Mistérios, os quais consistiam, parcialmente, em mostrar em quadros animados ou dramatizações, os acontecimentos dos mundos superiores. Os mitos nada mais são do que formas pitorescas de revelar ao mundo, certas verdades profundas. O herói do mito é geralmente representado por um deus ou semideus, e sua trajetória será semelhante ao curso do Sol, que desponta, atinge o zênite e depois o ocaso. O conhecimento era ministrado àqueles que provavam ser dignos... o fundamental era que o iniciado fosse moralmente forte, puro e altruísta.
Os Mistérios Menores eram a base da instrução e preparavam o candidato para a etapa seguinte, os Mistérios Maiores, nos quais restava apenas aprender a contemplar e compreender a natureza das coisas. A Teurgia, forma mais avançada de magia era praticada nos Mistérios Maiores para evocar a aparição de seres superiores. A prática das virtudes era pré-condição à admissão aos Mistérios. Eram classificadas em Virtudes Purificadoras ou Catárticas, Políticas ou Práticas, Intelectuais e as Contemplativas ou Paradigmáticas – pelas quais se obtinha a união com Deus. O ponto culminante dos Mistérios era a transformação do iniciado em deus, fosse pela união com um ser divino exterior, fosse abrindo os olhos à presença divina dentro dele mesmo.
Os mitos solares na Pérsia, Babilônia e Egito tinham uma natureza tríplice, tal qual a trindade cristã... e também como o tríplice aspecto da deusa Lua, como virgem-esposa-velha. Talvez isto tenha se originado com base nas três fases da luz solar: nascer do sol, meio-dia- e ocaso. A mudança das culturas matriarcais, centradas na adoração da deusa Lua, para os patriarcais, de predomínio dos cultos solares, pode ter sido desencadeada a partir do conhecimento secreto de que a luz da Lua, era apenas um reflexo da luz verdadeira do Sol, e do papel masculino na geração de uma nova vida.
Os mitos solares têm características em comum que se repetem, sejam quais forem as culturas envolvidas e, assim como os mitos da Lua, refletem os processos naturais que ocorrem tanto no ser humano, quanto no mundo. Esses processos incluem as fases do desenvolvimento físico e psicológico humanos, bem como as transformações da vida: nascimento, crescimento, maturidade e morte. Este ciclo continuamente se renovando, tanto no nível humano quanto na natureza, revela o verdadeiro sentido da imortalidade. Os mitos que mais influenciaram nossa tradição ocidental foram os egípcios, os gregos e os celtas.
Nos mitos egípcios a divindade solar era conhecida com Rá, Aton, Amon e Aten, embora Osíris e seu filho Hórus sejam mais associados ao deus-sol. A princípio Osíris era apenas o esposo da deusa Isis e seu inimigo, Set, refletia o dualismo dos gêmeos sombrios ou princípios complementares na natureza. Osíris foi assassinado e mutilado por Set que o esquartejou e espalhou pedaços de seu corpo pelo mundo. Sua esposa percorreu o mundo em busca do corpo do esposo. Osíris foi recriado através de uma ação mágica e ressurgiu como um deus-sol. Tornou-se a divindade solar máxima assumindo a forma de leão, senhor universal que supervisionava o processo da natureza desde a semente até o crescimento e frutificação, assegurando a continuidade de seu ciclo. Osíris teve que morrer sobre a terra para que a nova semente fosse libertada e se reproduzisse. Thot era seu ajudante e Hórus o filho que teve com Isis. Hórus é representado por uma criança, sentado numa flor-de-lótus aberta, com o dedo sobre os lábios, a pedir silêncio.
É um deus vingador que luta com Set para restabelecer o reino de seu pai, mas é também um deus que cura, protetor das artes, da beleza e da música, um deus guerreiro que traz a espada desembainhada para lutar pela luz e pela verdade.
Sob o título de mitologia celta se abrigam e se entrelaçam mitos de diversas regiões do que hoje se conhece como Reino Unido: Irlanda, País de Gales, Escócia, Inglaterra, etc.
O supremo deus solar celta era Lug, guerreiro, curador, ferreiro, poeta, harpista e carpinteiro. O senhor solar é entendido como um doador da luz e fertilidade, um curador da terra e rejuvenescedor do estímulo à vida. Após a sua união anual com a deusa Lua, no solstício de verão, sua energia diminui até desaparecer no mundo inferior antes de seu novo nascimento no solstício de inverno. Então o ciclo se repete anualmente. Um tema que se repete com os heróis solares é o do gêmeo sombrio, a luz e a sombra. Os deuses da luz expressavam sua natureza de modo extrovertido e os herdeiros sombrios expressavam-na de modo introvertido, usando seu poder para obter ganhos pessoais e poder sobre os outros. Contudo, significavam também que o herói solar deveria penetrar nas trevas de sua própria natureza, para que surgisse a transformação e a redenção, tal como Osíris/Set, Jesus/Satã, Rei Arthut/Modred.
O mito do Rei Arthur e seus cavaleiros da Távola Redonda aparece tanto na mitologia celta como na anglo-saxônica e na gaulesa. É chamado Ciclo Arturiano. Arthur é uma criança predestinada que é separada de sua mãe e criada por uma mago chamado Merlin, que o prepara para enfrentar o seu destino. Representava o deus solar unido aos seus 12 cavaleiros que impuseram a ordem e a paz na terra até se dispersarem pelo mundo em busca do Graal, o cálice usado por Cristo na última ceia, trazido para a Inglaterra por José de Arimatéia, e que continha o sangue de Cristo derramado na cruz. Ele teria o poder de curar e restabelecer o equilíbrio da natureza, resgatando a terra estéril. A Távola Redonda é muitas vezes representada com os 12 signos do zodíaco sugerindo que as qualidades de cada signo estariam personificadas em cada cavaleiro. Provavelmente Arthur personificava o Leão, e o Graal oculto, uma convocação para a busca da auto-realização dos cavaleiros.
Grécia - Os gregos tinham seu panteão com 12 deuses principais, governados por Zeus, que moravam no monte Olimpo. Zeus, ou Júpiter para os romanos, era o deus da Luz, senhor do Universo e seu nome significava a luz do céu. O Sol era conhecido como o olho de Zeus. Outros deuses gregos foram associados ao Sol, entre eles, Hélio, Apolo, Orfeu e o herói Hércules. Hélio era o deus do Sol físico e os cavalos brancos alados que conduzia seu carro de fogo significavam as paixões que precisam ser purificadas. Apolo era um deus solar ou de luz. Seus raios eram curativos e um de seus símbolos a lira de sete cordas. Seu arco e flecha revelavam a habilidade em atingir um alvo, cujo centro refletia a busca pelo centro do Eu. Em seu Templo em Delfos lia-se no pórtico as palavras “conhece-te a ti mesmo e nada em excesso”. Os Mistérios Apolíneos eram relacionados à lógica e à ordem natural dos relacionamentos planetários e celestes.
Os Mistérios Dionisíacos incluíam a embriaguez sagrada visando transes e a possessão divina. Os Mistérios Órficos foram uma mistura dos Mistérios Apolíneos e Dionisíacos, tentando unir a lira de sete cordas e o dom da música, com uma dança ritual mais disciplinada, invocando a possessão pelas divindades interiores. Orfeu, filho de Apolo e Calíope, era representado como o senhor das musas, cantando e tocando sua lira entre animais selvagens encantados. Por amor à sua esposa Eurídice, morta pela picada de uma serpente, desce ao Hades para tentar resgatá-la, não conseguindo o seu intento. Por isso as mulheres da Trácia o odiaram.
O tema principal dos Mistérios Órficos era a perigosa descida ao mundo inferior. Se você não encontrar luz no mundo exterior, para onde deve se voltar? A pergunta feita ao candidato a iniciado deveria ter como resposta que Deus e os homens estão interrelacionados e que as consciências humana e divina podem se fundir na forma do deus-homem e que esta é a essência do Grande Trabalho. Orfeu segue Eurídice para libertá-la da sombra da ignorância e da falta de compreensão. Hércules também representa o herói solar e, em seus doze trabalhos, simboliza aquele que atravessou as provações de cada signo do zodíaco, em seu caminho para o conhecimento profundo e a divindade realizada, o que lhe permitiu tornar-se o Pai de todos ou O nascido de si mesmo.
A partir da renascença, o homem passou a ser visto como participante da natureza de Deus, sendo dessa forma possível libertar-se das garras do Destino. Até então, a humanidade acreditou que, para escapar do destino, era preciso deixar de identificar-se com o corpo físico e identificar-se com a vida espiritual, o que era preconizado também pelas doutrinas orientais para libertar-se de reencarnações e carmas. Para o pensamento renascentista, os níveis onde o Destino poderia se manifestar estariam relacionado à atitude interna da pessoa e ao seu relacionamento ou não, com o mundo divino - o espiritual, arquetípico, imaginário. Nesta concepção, os planetas passaram a representar símbolos do mundo psíquico do homem. Trabalhar com esse material, criar novas conexões de acordo com o padrão natal de cada um, construiria o elo de ligação entre Deus e sua criação, entre idéias e sua manifestação física, entre liberdade e fatalidade.
A respeito de Destino e Livre-arbítrio, Yogananda, um dos primeiros mestres hindus a divulgar seus ensinamentos no Ocidente, escreveu em A autobiografia de um yogue:
Sorte, Karma, Destino, chamem-lhe o que quiserem - existe uma lei de justiça que de algum modo, mas não por acaso, determina a nossa raça, a nossa estrutura física e algumas de nossas características mentais e emocionais. O importante é compreender que, se não podemos fugir ao nosso modelo básico, podemos agir em conformidade com ele - e, assim, sermos livres. (...) As sementes do Karma passado não podem germinar se forem queimadas no fogo divino da sabedoria...
Também Carl Gustav Jung definiu livre-arbítrio como a capacidade de fazer de boa vontade o que se precisa fazer. Isso implica na descoberta de um significado que faz com que o destino pareça certo, como se a própria pessoa o tivesse escolhido. O Sol natal em um mapa astrológico é a chave para a busca deste significado.
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