8. OS MITOS DO DESTINO
Os deuses gregos não são propriedades exclusivas de nenhuma escola esotérica, doutrina religiosa ou seita espiritual. O conhecimento de nossa própria ambivalência apenas recentemente começou a ser restabelecido por meio da moderna psicologia, que inevitavelmente retorna aos deuses pagãos para compreender o comportamento humano. A mitologia grega é um exemplo vivo da eternidade e sofisticação da essência do homem.8
Os gregos chamavam Moiras ou Parcas as três senhoras do Destino. Segundo a mitologia grega, a roda da vida era a roda de fiar que ficava sob o poder das Moiras, deusas do destino. As Moiras são filhas da Mãe Noite, concebidas sem pai. Clotó era a fiandeira, aquela que dava a vida; Láquesis, a medidora, tecia, ou seja, concedia o desenrolar da vida e Átropos, cujo nome significa aquela que não pode ser evitada, a cortadora, cortava o fio da vida. As três teciam o fio da vida dos homens na escuridão de sua gruta e seu trabalho não poderia ser desfeito por nenhum outro deus, nem mesmo pelo poderoso Zeus. A partir do momento em que o destino do homem estava tecido, nada mais poderia alterá-lo.
A duração da vida e o momento da morte faziam parte da quota que as Moiras atribuíam a cada indivíduo. O indivíduo, quase sempre um herói - não poderia fugir de seu destino e seria punido pelos deuses com veemência se tentasse ultrapassar os limites estabelecidos pelas Moiras.
No nível psicológico, as três Moiras configuram a misteriosa e insofismável lei que atua dentro do indivíduo. É essa mesma lei desconhecida e invisível que determina as súbitas mudanças e que, por sua vez, altera os padrões preestabelecidos da vida. Toda vez que a vida muda não paramos para pensar... simplesmente nos preocupamos com nossas próprias reações a tais mudanças ... em vez de reconhecer a presença de uma força maior em ação.8
Essas figuras tão antigas estão dentro de nós... Só nos damos conta delas através dos efeitos externos, que denominamos destino... O destino não vem ao nosso encontro, mas, na verdade, nós vamos ao encontro dele. Até mesmo o espírito está sujeito aos comandos desse centro invisível que os gregos chamaram de Moiras, que nos fazem cair de nossos pedestais, destituindo-nos do suposto controle sobre nós mesmos.8
Hades/Plutão- Chamado de O Invisível e de Plutão, que significa riquezas, Hades era filho de Cronos e Rea. Recebeu do irmão Zeus o reino das trevas como herança. Quando vinha à superfície seu elmo o tornava invisível e suas leis eram irrevogáveis. Aquele que adentrava em seu reino não sairia jamais dali e os que o conseguiram não voltaram ao mundo da luz da mesma maneira, pois algo os transformava. O Senhor da Morte é a configuração definitiva de um ciclo de vida. Hades é o símbolo daquilo que experimentamos em todos os finais: o luto, a dor, a experiência da submissão voluntária às leis invisíveis da psique - a decisão de abrir mão de algo na esperança de que uma nova fase possa surgir. Estágio intermediário em que somos colocados face à face com a total irrevogabilidade de nossa perda. O início de algo novo, mas também a morte de uma antiga forma de vida, assim a perda deve ser reconhecida e lamentada tal como na lenda sumeriana de Innanna. Vamos despidos para as trevas, pois não podemos levar conosco os antigos padrões de comportamentos e posturas que nos davam segurança.
Pela mente grega, a sabedoria obtida pelo encontro com Moira, deve ser encontrada no desespero e na depressão, na inutilidade e na morte. Essa face vingadora de Moira parece ter um pouco a ver com Plutão. A lei de Plutão não é feita de regras sociais e jurídicas visando o bem estar da sociedade civilizada. Os pecados punidos por ele são os da hubrys, palavra que significa alguma coisa que tem a ver com arrogância, audácia, falta de humildade aos deuses e, consequentemente um fim trágico.
No reino de Plutão, o Tártaro, vemos personagens atormentados. Há sempre pedras, rodas, círculos fechados em torno dos humanos (tais como os anéis de casamento, coroas de louro e coroas funerárias) refletindo a irrevogável roda do destino, seja para o bem ou para o mal, tal como a ação de Plutão.
Quando alguém tenta ultrapassar os próprios limites permitidos e ir contra a ordem natural das coisas cumpre seu destino heróico, mas é punido pelas Eríneas, que tem que estabelecer a ordem natural que estava sendo transgredida. Assim é a experiência do desejo frustrado, do desejar aquilo que nunca poderemos ter ou que só poderíamos ter mediante o sacrifício ou a morte de algo muito mais caro para nós. Com Plutão somos forçados a encarar nossas compulsões e paixões insaciáveis, a escuridão, a crueldade, a obsessão. Plutão só veio à superfície da terra em duas ocasiões: por motivo de saúde, para curar-se de um ferimento, e por amor, para raptar Perséfone, o que atesta que estes dois setores da vida humana são ideais para as manifestações do destino.
Nada em excesso (nem mesmo a auto-perfeição) e conhece-te a ti mesmo, as frases escritas no pórtico do templo de Apolo em Delfos, eram as exigências que os deuses faziam aos homens. Plutão rege o lugar onde a vontade apenas não tem serventia. Ele é a imagem da nossa impotência, servidão, humilhação e violação. A aceitação sincera do que é imutável é o que determina a transformação no interior da psique. Não adiantam terapia, meditação, livros de auto-ajuda etc.
Inanna/Erishkigal – Esta lenda sumeriana parece ser um dos mais antigos mitos conhecidos, data de 3.000 a.C. Inanna é uma deusa do céu, alegre, gentil, iluminada. Quando fica sabendo que sua irmã Erishkigal, a Senhora da Grande Região Inferior, ficara viúva, resolve fazer-lhe uma visita. A irmã a trata do mesmo modo como eram tratadas todas as almas que chegavam ao seu reino. Há sete portais para se chegar ao submundo, e em cada um deles, Inanna deve tirar uma peça de roupa: sua túnica, seu vestido, suas jóias, até chegar ao ponto mais profundo do submundo completamente nua. Aí ela é forçada a se curvar diante da irmã, que não contente, então a mata e pendura seu corpo numa estaca para apodrecer. Mas, antes de descer ao mundo inferior, Inanna tinha prevenido sua escrava de que, se não voltasse em três dias, avisasse seu avô Enki. Assim fez a escrava e Enki então, moldou da sujeira de suas unhas, duas criaturinhas minúsculas, os Lamentadores, que poderiam entrar no mundo inferior sem serem notadas e sem precisar passar pelos portões. Erishkigal está grávida e sofrendo de dores do parto e também lastimosa pela morte do esposo. Ao chegarem perto de Erishigal, eles não a julgam nem a condenam, apenas choram e se lamentam com ela. Eles sabem da necessidade de salvar Inanna, mas sabem que, neste momento, têm que deixar Erishkigal dar vazão ao seu ódio e sua fúria. A deusa sombria está desolada e chora. – “Eu sou o pesar, o pesar está dentro de mim!” – e eles respondem: “Tu que choras, és a nossa rainha!”- Ela se lamenta: - “Sou o pesar, o pesar está fora de mim” – E eles respondem – “Tu és nossa rainha, nós te louvamos!” Comovida com o apoio dos lamentadores, a rainha promete lhes satisfazer qualquer desejo. Eles então pedem que ela restitua Inanna à vida. E assim é feito. Inanna então pode voltar ao seu reino celestial.
Os trânsitos de Plutão parecem ter esse efeito em nossas vidas – o de nos despojar de tudo com o que nos identificamos e que usamos para compor a nossa personalidade, até nos deixar nus e de joelhos, humilhados diante de um poder maior. A única postura possível diante deste poder é aceitar o que não pode ser mudado, e dar vazão à dor e ao sofrimento deixando-os fluir até se esgotarem. Somente desta forma poderemos emergir da crise para uma nova vida, com muito mais sabedoria.
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